sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Muito aqui dentro

Ando com a cabeça um pouco cheia. É como eu disse, e não posto há tanto tempo que toda a plateia semipermanente que eventualmente se aventuraria por aqui se desfez em plantas secas que se dispersam no vento.
É verdade, quando alguma coisa subjetiva ou só pitoresca aparece, um poema se faz bastante rápido, mas e toda a razão que preciso botar pra fora? Cada pedaço que eu esqueço sem escrever é uma lembrança cruel da maldição e dádiva da memória humana curta e seletiva.
Então, num esforço não muito grande de botar algo no nada, e querendo voltar a escrever sobre o que não se leva em conta, lembro-vos apenas de garantir que sua água tônica não seja muito doce e tenha razoavelmente 80-100 ppm de quinino, pois muito menos e teremos club soda e açúcar; que seu gim seja gim de zimbro e, se feito num alambique suficientemente informal, tenha o primeiro gole do alambique jogado fora para evitar que você fique cego (evite metanol); leia Poe ao envés de assistir torture porn, pois você já conhece a fragilidade do corpo; e não desaponte seu eu futuro mais do que o necessário, ainda que tudo que façamos seja mais ou menos isso. Cheers.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Apoteose

                Cor alguma tinha o limiar do infinito, branco em calor extremo, uma supernova falciforme defenestrando tempo e luz para o murmúrio da noite. Bordas azuis, depois vermelhas e negras ao se juntar ao nada do espaço.
A noite continuava em negritude, incalável, indizível, calava, e dizia em silêncio. O caos era a lei e a lei era o silêncio, que em caos vertia destroços de sentimentos e írises e sabores de mel; anjos do rastro, rastreões, rastejavam pelo ar, buscando novamente seus corpos após momentânea interminável jornada. Ideias eram cor, tudo, e nada, impressões dos rastreões sobre o todo que viviam, sobre o vidro que vibravam em seus olhos de anseio, a energia que derramavam em fogo e escalar.
Ah, seus membros de centeio, seus leitos semeados em ínfima infração. Infrator mor sem escárnio, marejando contas de espaldar, num púlpito solitário. Declamava à, declarava-se para, era ele, a solidão.
E no estar de nunca e sempre que bombardeava em mentes de trovão o singelo duvidar, que era o saber, que era a maiúscula que encontravam os mostardos seres de gota. Gotosos hedonistas, da ambição e da procura pelo acima, pelos Tenco e pelos Came seguiam seus curtíssimos caminhos tubulares, tumulares se aceitavam, tremendos se perseguiam. De seu sumiço em sumidouro que somente Daicames maiores compreenderiam ou saberiam perseguir, vinha a morte que tanto idolatravam, temiam e odiavam, sua maior algoz e dádiva.
Adalond, o infrator, o destemido ator, o farsante honesto cético, meticuloso cerrou-se: encontrou nos próprios umbrais o caminho do encontro a si, e venerou a si e a nada, ao infinito e ao negro, ao som e à canção, ao calar e ao calor.
Respondeu ao marco de badalada sideral, ao portal e a Verdade o microscópico alarde.
Quando as curvas do firmamento, na fenda de dez mil milênios, saltaram sobre Adalond, nada mais viu senão sons de letras antigas e órgãos tão maiores que o ser. Ouviu as cores do estribilho universal, tocou os dedos sobre bordas rachadas de uma esfera de quinze bilhões de anos. Subiu seis graus de dimensão e viu-se em dez, em um tempo e nove novos e velhos espaços.

Gravidade acariciou seus membros fractais e lâminas conversaram. Seres eram o todo, tudo eram seres e infinitudes. E o oceano, a cor vibrante que opaca era, mostrou a Adalond tudo que seria visto, não por olhos nem receptores. Preceptores não haviam em parte alguma, em nenhuma fenda, em nenhum ouvir. Nada era uno, e tudo era parte de singela forma que Euclides não sonharia traçar. Nada havia acima, e acima de tudo só se via o branco, e como tudo fazia sentido em sua mútua destruição cíclica. Só se via a ordem surgir do caos.

Lui Martinez Laskowski

quarta-feira, 22 de abril de 2015

The Undertaker

I must be bewitched, lingering general
waging war with life and mineral
and ages long shall lie as strong wheat before my feet

Adore the mages, demigods
kill the pages, under lore of
forgotten ink blackened by years
of heartless loving of windless sailing
of headless bleeding and mindless thinking

Rise
demise, disguise and improvise
your blood-bitter notes of sugar and smoke

I tell tales of slave and lord
I run vales of rebellion and scourged
lashed whipped
bitter backs

For who?

Am I the undertaker

and the lasher and the holder
and the pain in flick tor
and the slave and overlord

I
am
the Lord
the lord
the ord
er

in chaos

terça-feira, 7 de abril de 2015

Silêncio

Silêncio.

É disso que somos feitos. Silêncio e voz.
Não há luz e trevas, paz e caos, vida e morte. Há silêncio e voz, silêncio e canção.

No início, era o verbo, e num fiat lux o som se fez mundo antes da luz ou da terra.
No início era a conversa de Olorum, que em som fez o mundo por Oxalá, antes de tudo.
No início foi a canção dos Ainur, que existiam apenas como parte de seu canto, e somente em suas consonâncias e dissonâncias moldaram o bem e o mal.

No início, era o grande estouro.
As membranas cósmicas que eram apenas dimensões de frequência.
As cordas, que tudo são. Apenas cordas vibrando em canção.

E nas relações entre as coisas se definem as coisas, e silêncio se fez então após a canção. E a canção era silêncio, e silêncio era canção.

E num insignificante canto um cantador silencioso ouviu, então, canção exterior. E ela cantou-o, e eles cantaram-se sem mais parar. O silêncio era agora apenas pausa.

O que nos é ter?

A ausência de contraste é a ausência de canção. E esta é a canção que interrompeu-se por poucas intermináveis dolorosas horas humanas.

Silêncio não era pausa. Era escuro, era ausência.

A mente do cantador, que era voz e caos, na canção tornara-se silêncio perfeito. E o silêncio da canção, da musa e do ar explodiu sua mente em caos e voz.

O silêncio destruíra sua paz.

O silêncio era seu caos.

E na morte da solitude,
viveu a solidão.

Viva seu silêncio. Mas faça dele pausa na canção.

Lui M Laskowski

sábado, 4 de abril de 2015

Rough Music

Ran tan tan!
The sound of the old pot and the old tin pan

Old Abraham Bullock s'been beating his good wife
Been beating her and beating over what she deserved alive
So grab him, wives, women, willows, whales and womenkind
And show him pain in a way that he will never leave behind

Ran tan tan!
The sound of the pot and the old tin pan!

Mean Roger Atkinson has put good Abraham to death
He calls himself a judge, th' fiery eyes and dragon's breath
So break thee windows make 'er a widow of a man like he
Or put him in a boat and turn him starboard to sea

Ran tan tan!
The sound of the pot and the old tin pan!

The judge's widow Jane is marrying Mayor Brown, behold!
Three decades apart in age and silver by tenfold
So make 'er ride the skimmigton and make 'im hunt the deer
To make 'em run and hide in fields miles away from here

Ran tan tan!
The sound of the pot and the old tin pan!

Crowd of Luitown

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Moais

Me tornaste um, entre moais.
Em minha solidão...
Sob terra galvânica, solidão oceânica.
Encravado na rocha, jamais.

Enterrado, mas vivo. Sou tocha entre sais.
Companheiros caídos em vitórias pírricas,
Trirremes corroídos, estivo.
Ruínas de vento também têm umbrais.

Me apóio na terra ferida demais.
Escuto o quebrar. Dormi de costas para o mar.
Vento esmurra minhas feições de arenito, maresia corrói meus olhos feridos.
Estou vivo, e altivo, em meus pés esculpidos.

Alas rochosas não abrem. Sou ilha, recife, montanha e areia.
Floresta, água e palmeira. Seria sereia?

Um passo e afunda na fossa minha ilha. Estou a destruí-la. Pedaços de meu corpo caem, pedregulhos na grama que se torna restinga. Você os abocanha.

Eu sou seu, já sei, já seu. Seu demais. 
É possível
ser seu
demais?

É terrível,
sem ti,
está em todos
os meus
vitrais.

Rocha em areia, areia em vitrais.
Sou um, sou seu, entre moais.

Lui M Laskowski

Conocência

Exponha-te, na carne que apodrece de inocência
Ávida sapiência, és escravo, és excelência
Imerge-te no abismo da imortal proficiência
Sabes?
Que és
inábil?

Explode em vãs fagulhas de sábia luminescência
Agoniza, realiza ultrapassar suficiência
Destrói os bastiões da infernal saber carência
Sabes?
Que és
ignóbil?

Afaga inutilmente tua astral inconsciência
Se não ama, não derrama tuas teias de indecência
Se não ama nada, estás de forma ou outra na demência
Sabes?
Que és
(in)útil?
          Nobre,
                    pobre,
                              e fútil

Lui M Laskowski

Líquenes

Meu micélio e hifa aleatórios 
Abraça envolve com braços de pálida,
Vivíssima asserção

Seus verdes e frágeis envoltórios
Amassa, solve magistral crisálida,
Finíssima absorção

"O que os líquenes comem", 
O que serve p'ra poesia
Essa inútil maestria, valas e periferia

Em nosso valor tão somen-
-te ideais de fantasia
Essa velha e deliciosa arte que sentia

Que entendemos e pretensiosamente rabiscamos
Revolvemos e maliciosamente retratamos

Que viagem.

O que quero entender
É você
O que quero retratar
É o amar

Sermos líquen, disseste, é uma
péssima referência.

Não duvido, não revido que, devido a um mau sentido
Outra peça de alarido descabido eu tenha escrito

Que viagem.

Aqui vai uma batata por papel desperdiçado
No caos de um apaixonado

Lui M Laskowski

Beijo de Meio Segundo

Silêncio,
silêncio entre versos.

(Aquele silêncio perfeito
que você só sabe definir
como um golpe de espera e fruir)

Meio primeiro profundo segundo, estático
Irrigando ferro de iridescência
Meio esquecível? Ou não, nesse tom catedrático
Um ósculo, a nível de ardência

(Acho que isso é um
verso, uma linha de silêncio por
isso eu a quebro semi-
-prosa formosa assim)

Meio segundo, e vai ao relento.
De saudade um estouro, um momento
De fogo e infinito e rotundo,
deixado um segundo ao rigor do vento

De frio, memória e lembrar de um
segundo queimando e rebento
de mim
Assim, no vazio refletir o contraste:
Ter nas mãos memória rasteira
de um segundo da mi'a vida, inteira

("Tchau", risos, risos der-
retentes, seus e
que amar tao fácil tao racio-
nal e emoção perfeito?
Perfeita.)

Em reação desconcerto;
Coração, acerto e aberto.

Lui M Laskowski

Reverência

Se reverência traz a forma 
E se a forma traz excelência 
A beleza na irreverência
Se infiltra pelos vãos da norma

Às vezes não só nas lacunas
Só nas runas, imagens e cunhas
Entre as unhas, resíduos de espaço:

Quebre o compasso, a rima, a lei, os ossos, os laços acima do rei dos troços.

Sobre esse traço de lima também sei que posso no aço polir: ferirei quantos nossos?

Vê tu,
queria eu mostrar irreverência:
Vetustos
germinaram meus versos na essência.

Que irritante essa droga
droga em sentido... que sentido?
Escrevo. mais. rápido.
meus erros se tornam certeiros.

Que viciante, essa droga esse estalido esse cortante brado esses erros certeiros essa restinga reluzindo na meia lua esse respingo de sangue reduzindo a criatura a voz e essa atroz brisa de...
noite e
sereno
sereno não é frio

minha frieza não é serena, é uma tempestade
oculta numa caverna irritante num oceano subterrâneo numa meteorologia petrologicamente inexistente

um oceano
lógico?

não
irreverente

Lui M Laskowski

Por Que Eu Escrevo

Por quê eu escrevo? Ainda mais o que eu escrevo, tipo, "como não incitar uma colônia à guerra e manter o domínio".
Eu escrevo por que eu preciso.
Fico pensando nessas idéias por semanas ou meses, e tenho de botá-las para fora tão bem articuladas quanto eu as pensei, senão elas continuam me atormentando.
Preciso escrever. É um vício constante, um prazer do qual não abro mão e não pode ser substituído. Não espero que você compreenda (mas gostaria que tentasse). Espero apenas dar uma pequena explicação de por quê mes textos às vezes parecem tão sem-contexto com o resto do mundo.